Mercado do Vinho em 2026 - Presente, Futuro e Sinais de Atenção
- Teresa Gomes

- 13 de jan.
- 7 min de leitura
Falar de tendências do vinho em 2026 não é antecipar modas passageiras. É observar sinais que já estão à vista nos comportamentos, nas escolhas e na forma como hoje nos relacionamos com o vinho.
O vinho em Portugal continua a ser cultura e emoção, o que mudou foi o contexto. Produz‑se, comunica‑se e consome‑se de outra forma. O presente exige adaptação e o futuro pede lucidez.

O consumidor atual bebe menos, mas escolhe com mais intenção. Já conhece castas e regiões e utiliza guias de compra. O vinho está a deixar de ser um produto de consumo diário em que muitas das vezes o preço tem um factor decisor importante, e passar a ser uma decisão consciente para um consumo pontual e especial. Dito por outras palavras, o vinho perdeu o estatuto de bebida quotidiana dominante na vida social e nas refeições.
As razões apontadas são várias, entre elas destaco o da população envelhecida. E assim o mercado europeu está a seguir uma tendência de redução do consumo per capita em muitos países. Para 2026, segundo a Organização Internacional da Vinho e do Vinho (OIV), espera-se uma continuação da tendência de diminuição do consumo.
Segundo o Conselho Interprofissional do Vinho de Bordeaux (CIVB), o consumo de vinho tinto na França caiu cerca de 90% desde a década de 1970. No geral, o consumo total de vinhos (tintos, brancos e rosés) no país diminuiu mais de 80% desde 1945, com a tendência se acentuando entre a Geração Z, que compra metade do volume adquirido por Millennials mais velhos, segundo a Nielsen.
Os apreciadores de vinhos procuram hoje o propósito, a história e a autenticidade no vinho, não apenas a bebida alcoólica. O consumidor tornou-se exigente e informado desde 2020. A herança cultural mantém valor, mas deixou de ser suficiente por si só
Olhando para o que é comprado, identifica-se como tendência de estilos, os vinhos brancos frescos e espumantes estão entre os estilos que ganham terreno, tanto pela versatilidade gastronómica quanto pela atratividade para públicos mais jovens. Seguem-se os rosés secos e os tintos com menor teor alcoólico nas preferências dos consumidores de qualquer idade.
Nos Estados Unidos, o consumo de vinho também registou níveis historicamente baixos, em parte refletindo mudanças nos hábitos de consumo, competição de produtos alternativos e questões tarifárias que afetaram a cadeia de oferta.
Por lá o mercado já está reagindo de forma direta, com muitos grandes produtores de vinho a adaptarem-se aos consumidores mais jovens, via propostas mais flexíveis e formatos alternativos. O foco está na rentabilidade, na eficiência da venda de vinhos nos restaurantes, bares e em eventos e também na diversificação de formatos para além da garrafa de vidro. Em 2026 vão continuar a crescer propostas “made in EUA” como vinhos em lata, “wine on tap” e oferta de opções de vinhos Low e No Alcohol.
Por cá estas ofertas também existem, porém são ainda tímidas. Julgo sofrerem do efeito “pescada rabo na boca” -o consumidor não pede, o produtor não oferece. Sendo que estes últimos vejo-os com muitas crenças limitantes para entenderem outras formas de fazerem e venderem vinho.
Sete tendências para o mercado dos vinhos 2026
1. Diversificação de castas e identidades regionais
O interesse e curiosidade por parte do consumidor em castas autóctones e “esquecidas” vai aumentar. A procura por alternativas diferenciadas aos clássicos globais e contando histórias únicas será um mote forte para 2026.
E quem sabe tão bem entregar tudo isto ao consumidor são os produtores de “vinhos naturais”. Não sei quantos mais bares de vinhos naturais é possível abrir em Lisboa, contudo a quantidade de produtores e Enologos a “dar o salto” é maior de ano para ano. Por isso oferta de vinho não faltará, nem de espaços para os apreciar, pelo menos em Lisboa.
Um dos temas quentes de 2025 foram as tarifas sobre vinhos importados em relação aos EUA. Esta situação afectou margens e estratégias comerciais de muitos produtores, influenciando sobretudo a rotação de stocks. Por isso é muito provável que se veja nos primeiros meses de 2026 muitos vinhos das colheitas anteriores, quando habitualmente já andaríamos a compra a colheita mais recente.
2. Frescura como novo luxo
Vinhos de corpo mais leve, ou seja, com maior acidez e menor teor alcoólico ganham preferência junto dos consumidores.
Brancos precisos, espumantes, rosés secos e tintos mais leves alinham‑se com novos hábitos alimentares (cozinha internacional, Take-Away) e maior atenção ao bem‑estar.
3. Estar à mesa, mesmo sem álcool
Por opção pessoal, convicção ou necessidade circunstancial, é hoje possível continuar a beber vinho mesmo quando o consumo de álcool não é uma opção. Os vinhos com baixo teor alcoólico ou sem álcool, frequentemente designados como NoLo (No/Low Alcohol), deixaram de ser uma curiosidade marginal para se afirmarem como uma categoria em consolidação. É possível encontra-los em Portugal em bares e restaurantes, incluindo de Fine Dining.
Esta evolução reflete uma mudança mais ampla nos hábitos de consumo, impulsionada por uma maior atenção à saúde, ao bem-estar e à relação consciente com o álcool, sem abdicar do ritual, do sabor e da experiência social associada ao vinho.
4. Sustentabilidade deixou de ser argumento
Práticas sustentáveis como a agricultura regenerativa ou a simples opção por garrafas de vidro mais leves tornaram-se expectativas claras de muitos consumidores, não meras opções de nicho.
Os produtores no Mundo estão a optar por práticas que respondam aos desafios climáticos, tais como plantar castas mais resistentes, gestão de irrigação de precisão ou plantação em altitudes variadas. Com isto estão a moldar a viticultura e impactar o estilo dos vinhos das próximas colheitas.
A inteligência artificial também está presente no sector do vinho. Estudos académicos demonstram que está a ser aplicada para melhorar a sustentabilidade e eficiência na viticultura, produção e enoturismo, com impacto tanto económico quanto ambiental.
No serviço de vinho a copo, o formato Wine On Tap tende a tornar-se progressivamente mais comum em bares e eventos nos próximos anos. Trata-se de um sistema que alia rentabilidade, consistência e sustentabilidade. Ao substituir a garrafa por barris reutilizáveis, reduz-se significativamente o desperdício, tanto de vinho oxidado como de vidro, cartão,rolhas e cápsulas, bem como optimiza o custo por dose, permitindo um serviço mais controlado e previsível.
Resta agora esperar (e incentivar) que mais produtores Portugueses passem a disponibilizar os seus vinhos neste formato de forma estruturada e regular, reconhecendo-o não como um serviço “menor”, mas como uma solução moderna, eficiente e alinhada com as exigências de pontos de venda que queiram marcar a diferença..
5. Menos vinhos óbvios, mais inteligência na Carta de Vinhos
Já o disse mais a cima, o consumidor está mais informado e muito provavelmente anda a comprar mais vinhos para consumir em casa, do que aqueles que consome hoje no restaurante. Logo quando vai ao restaurante não quer encontrar a mesma oferta.
Cresce por isso a importância das Cartas de Vinhos representarem diversidade. Regiões emergentes, castas menos previsíveis e vinho a copo devem ganhar protagonismo se o estabelecimento quer ter uma Carta de Vinho vencedora.
A educação dos profissionais com responsabilidade no serviço de vinho é uma constante e não apenas uma tendência para 2026. Já há muitos anos que não vejo a formação de equipas centrado em termos técnicos e pontuações dos vinhos, o foco é deslocar-se para conexões emocionais com o vinho, compreensão dos consumidores como indivíduos, e narrativa que valoriza as memórias e histórias associadas ao produto.
Perante os consumidores actuais é cada vez mais necessário, em vez de transmitir conhecimento como “tese” técnica, educar através de narrativa e emoção. Promoção de experiências, como a visita a um produtor, que envolvam memória, ocasião e relacionamento com o vinho tende a criar fidelidade e engajamento mais profundo. Além de uma boa história para contar ao cliente.
6. Provar deixou de ser suficiente
As degustações em ponto de venda cedem lugar a experiências com tempo, narrativa e envolvimento emocional. O enoturismo e experiências sensoriais vão ganhar relevância. Enoturistas procuram imersão, Storytelling e contextos culturais integrados, e não apenas degustações.
O Global Wine Tourism Report 2025 destaca que o enoturismo passou de nicho a um motor dinâmico do desenvolvimento rural, com forte ênfase em autenticidade e sustentabilidade nas experiências de visita.
Em 2026 o enoturismo vai continuar a afirmar‑se como extensão natural do vinho. Se por um lado a Geração Z não está a consumir vinho como a anterior, há um movimento para vinhos com história e qualidade em detrimento de volume puro. Aqui a vertente do enoturismo pode ser um caminho.
Plataformas online, clubes de vinho digitais e ferramentas de personalização de consumo estão a ganhar importância crescente na forma como os consumidores se relacionam com o vinho. Um movimento que se intensifica especialmente entre a Geração Z.
Não se trata apenas de comércio eletrónico, mas de criar ecossistemas que unam conteúdo relevante, personalização e comunidade, favorecendo interações repetidas e mais profundas com o consumidor. Para 2026 e além, os produtores que melhor combinarem o talento humano com ferramentas digitais que reforcem valor, história e autenticidade estarão em posição de capturar novos segmentos de mercado e de construir relações de consumo duradouras.
7. O vinho precisa de voltar a falar de pessoas
Também os produtores devem passar a ter menos obsessão técnica e mais ligação humana pois a linguagem pode ser acessível sem perder rigor.
A tradição deve ser ponto de partida, não ponto de chegada. Quantas mais histórias de “pequena família de produtores” vai o consumidor ouvir? Comunicar para criar relação e não apenas para impressionar. Do que interessa o brasão da família? Ou pior, nem saber quem está por detrás dos vinhos da Quinta XPTO.
Portugal tem diversidade, identidade, castas únicas e uma ligação profunda entre vinho e território. O desafio não é o conteúdo é a tradução contemporânea desse conteúdo. A experiência precisa de ser pensada como narrativa porque o consumidor valoriza verdade mais do que perfeição
O ano de 2026 não marca uma rutura, mas consolida um movimento já visível. O vinho que prospera é aquele que sabe escutar, adaptar‑se e comunicar com humanidade. Para quem aprecia vinho, isto traduz‑se em escolhas mais conscientes.
Nota final — Uma reflexão pessoal
Enquanto Escanção & Educadora de Vinhos, com mais de duas décadas a provar, estudar, ensinar e acompanhar pessoas muito diferentes na sua relação com o vinho, sinto que o mercado do vinho entra em 2026 numa fase particularmente interessante e exigente.
Nunca tivemos tanto conhecimento técnico disponível, tantos dados, tantas ferramentas. E, paradoxalmente, nunca foi tão importante abrandar, escutar e observar.
O que vejo no presente (e no futuro próximo) é um convite claro a regressar ao essencial, ao vinho como experiência humana, cultural e sensorial. Um vinho que não precisa de provar que é importante, mas que sabe criar ligação. Um vinho que se explica quando é preciso, mas que também sabe ficar em silêncio no copo.
Acredito profundamente que Portugal tem tudo para continuar a afirmar‑se neste novo contexto global de diversidade, identidade, pessoas e histórias verdadeiras. O desafio está menos em mudar quem somos e mais em aprender a contar melhor o que fazemos, com rigor, clareza e sensibilidade.
Se este artigo servir para gerar perguntas, mais do que respostas fechadas, então cumpriu o seu propósito.







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