O futuro do vinho Português começa nas castas?
- Teresa Gomes

- há 3 dias
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Reflexões sobre alterações climáticas, castas portuguesas e o futuro da viticultura em Portugal após a conferência Só Castas.

No ano passado estive na conferência Só Castas, em Lisboa. Foi um daqueles dias em que se ouve mais do que se fala, e em que se sai com mais perguntas do que respostas.
Ao longo das várias apresentações, ficou claro que o mundo do vinho está a mudar. E talvez mais importante ainda, Portugal pode estar numa posição particularmente interessante para enfrentar essa mudança.
Este ano, a conferência regressa no dia 10 de Abril, no Hotel Tivoli Avenida Liberdade em Lisboa. Confesso que estou muito entusiasmada. Não apenas pela oportunidade de aprender novamente, mas também por continuar a refletir sobre o futuro do vinho português.
Mas atenção o Só Castas é mais do que apenas uma conferência, vão ser dois dias (10 e 11 de Abril) com zona de provas dedicada exclusivamente a vinhos portugueses mono-castas (algumas raras) e provas comentadas. Uma oportunidade única para explorar castas portuguesas com foco e profundidade.
Neste artigo partilho algumas das ideias que mais me marcaram na conferência em 2025, com base nas apresentações de Gregory Jones, José Miguel Martínez-Zapater, Elsa Gonçalves, Igor Gonçalves e Charles Metcalfe.
O vinho está a mudar e já estamos a sentir isso
Uma das apresentações que mais me marcou foi a de Gregory Jones, especialista em clima e viticultura. A sua mensagem foi clara ”as alterações climáticas já estão a afectar a viticultura”, a fenologia da videira “avança 5 a 10 dias por cada 1°C.” Deu exemplos do Vale do Rodano e da Borgonha que não são únicos de França.
Todas as regiões vitícolas de latitude média (Europa incluída) enfrentam desafios semelhantes, como forte variabilidade climática e um maior risco de secas prolongadas e eventos extremos mais frequentes (31–66% eventos abruptos desde meados do século XX), sobretudo no Inverno. Estão também a aumentar as transições rápidas entre seco e húmido o que provoca maior evaporação (atmosfera mais quente).
Isto é particularmente crítico para a vinha! As regiões que já são secas (Sul da Europa, Mediterrâneo, parte de Portugal) tornam-se mais quentes, mais secas e mais instáveis.
As sequências de calor extremo estão a aumentar e a impactar também a vinha. Há mais stress hídrico, bloqueio de maturação, menor rendimento.
As alterações climáticas trazem também o desfasamento na maturação, açúcar, acidez e compostos fenólicos já não evoluem juntos, o que inevitavelmente provoca mudanças evidentes no estilo dos vinhos:
Mais álcool;
Menos acidez;
Perfis aromáticos mais maduros;
Menor frescura.
Em Portugal, muitos produtores já falam destas mudanças. Em algumas regiões, as vindimas acontecem cada vez mais cedo. Em outras, a maturação tornou-se mais irregular. A relação entre açúcar, acidez e maturação fenólica tornou-se mais difícil de equilibrar.
A mensagem de Gregory Jones não foi apenas de preocupação, foi também de adaptação. A viticultura sempre mudou e continuará a mudar, o que incluirá, a mudança geográfica da viticultura.
A diversidade portuguesa pode ser uma vantagem
Se Gregory Jones trouxe o enquadramento climático, José Miguel Martínez-Zapater trouxe uma perspetiva particularmente interessante para Portugal. A Península Ibérica é uma das regiões com maior diversidade genética de Vitis vinifera do mundo. Portugal, em particular, tem um número extraordinário de castas autóctones.
Durante muitos anos, esta diversidade foi vista como um desafio. Castas difíceis de pronunciar, difíceis de comunicar e difíceis de explicar. Segundo Martínez-Zapater, a diversidade genética é uma das melhores ferramentas para enfrentar as alterações climáticas. Felizmente Portugal é um reservatório genético estratégico e por isso um território com elevado potencial de adaptação climática.
As variedades ibéricas resultam de cruzamentos naturais, foram selecionadas localmente e adaptaram-se ao território ao longo de séculos. Logo as castas Portuguesas já passaram por processos naturais de adaptação e são naturalmente resistentes, ou seja, maior resiliência climática, estando melhor adaptadas ao clima mediterrânico.
A diversidade genética é uma vantagem competitiva que Portugal tem para a adaptação climática, sustentabilidade e diferenciação. Os vitivinicultores devem evitar o “monocastismo”, ou seja, a uniformização varietal, pois a seleção clonal excessiva reduz diversidade e aumenta vulnerabilidade. É caso para dizer “Viva! Às vinhas velhas e aos “field blends”.
Quanto maior a diversidade, maior a capacidade de adaptação. Esta ideia parece-me particularmente relevante para Portugal, pois aquilo que sempre foi a nossa complexidade pode ser também a nossa força. Foi bom ouvir que Portugal está melhor preparado para o futuro climático do que muitos países.
Adaptar a vinha será essencial
As apresentações de Antero Martins e Elsa Gonçalves trouxeram a discussão para o terreno. A adaptação não passa apenas pela escolha de castas. Passa também por repensar a forma como se trabalha a vinha.
As alterações climáticas já estão a afectar a viticultura portuguesa. Entre os principais desafios, destaca-se o stress hídrico:
Secas prolongadas
Menor disponibilidade de água
Maior evapotranspiração
As regiões mais vulneráveis são o Alentejo, o Douro Superior, o Tejo, a Beira Interior e o Algarve. Como consequências os produtores devem esperar menor produção, maturações irregulares, paragem de maturação e inevitavelmente um maior custo de produção.
A escolha de castas torna-se estratégica! Plantar castas resistentes ao calor, à seca e de maturação tardia.
A escolha de porta-enxertos será cada vez mais importante. Devem ser resistência à seca, ter melhor eficiência hídrica e adaptação ao solo.
A gestão da copa será fundamental para a proteção dos cachos e redução da exposição solar, isto é, menos desfolha, maior sombreamento e assim maior proteção contra o escaldão.
A gestão do solo também será decisiva. Atraves da cobertura vegetal, aumento de matéria orgânica e conservação da humidade.
Muitas destas práticas já estão a ser adotadas por produtores em várias regiões Portuguesas. Tendências já visíveis são a agricultura regenerativa e praticas “simples” de cobertura vegetal e menos mobilização de solos. O grande entrave, que oiço os produtores mais comentarem é, por parte de quem trabalha a vinha, preferem continuar a fazer como sempre fizeram...
A altitude e localização da vinha hoje torna-se estratégica. Espera-se uma tendência futura de movimentação para altitudes mais elevadas, regresso a zonas tradicionais mais frescas e maior valorização da influência atlântica. Alguns exemplos de regiões que posso referir são: Dão; Lisboa; Bairrada; Trás-os-Montes e Távora-Varosa.
O que ficou claro é que a adaptação não será uma solução única. Será um processo contínuo. Em suma, Portugal terá desafios climáticos, mas tem vantagens.
O futuro será feito de pequenas decisões
A apresentação de Igor Gonçalves reforçou esta ideia. A adaptação acontecerá através de muitas decisões pequenas: escolha de castas; escolha de porta-enxertos; localização das vinhas; gestão da água; práticas culturais.
Nada disto é totalmente novo, acontece que o contexto mudou e essas decisões tornam-se cada vez mais importantes. Falou-se também de oportunidades, novos estilos de vinho, valorização de regiões mais frescas e maior diversidade. O futuro não será igual ao passado. Mas isso não significa necessariamente algo negativo.
O desafio não é apenas climático
A apresentação de Charles Metcalfe trouxe uma perspetiva diferente. O desafio não é apenas vitícola. É também comercial. Charles Metcalfe destacou vários pontos:
Portugal tem qualidade;
Portugal tem diversidade;
Portugal tem identidade.
Mas também enfrenta desafios com as castas a serem pouco conhecidas, ter poucas marcas fortes e os produtores investirem pouco em Marketing. Uma das suas frases ficou-me na memória "Portugal talvez precise gritar mais alto, sobre os seus vinhos".
Ao ouvir todas estas apresentações, fiquei com uma sensação clara. O vinho português está numa fase particularmente interessante, há desafios, mudanças e incertezas. Mas também há diversidade, identidade, conhecimento e inovação. Talvez uma das maiores vantagens de Portugal seja precisamente essa diversidade. Diversidade de castas, de regiões e de estilos.

O ano passado saí da conferência com muitas ideias e com vontade de continuar a aprender. Por isso, estou particularmente entusiasmada com a edição deste ano. Eventos como este permitem parar, ouvir e refletir.
O vinho português está a mudar. As castas portuguesas podem ser parte da resposta. E encontros como a Só Castas ajudam-nos a compreender melhor esse futuro. Dia 10 de Abril estarei lá novamente. E estou muito curiosa para continuar esta conversa.




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