O vinho tem futuro?
- Teresa Gomes

- 17 de mai.
- 6 min de leitura
Atualizado: 26 de jun.
Nos últimos tempos tenho ouvido muitas vezes a mesma pergunta “O vinho tem futuro?".
A questão surge por variadíssimas razões. Fala-se cada vez mais de saúde e bem-estar, cresce a oferta de vinhos sem álcool e outras bebidas alternativas, e no final o preço actual dos vinhos.

Movimentos como o Dry January (Janeiro Seco) ganharam popularidade nos últimos anos.
Em Janeiro, após os excessos inevitáveis das festas de Natal e fim de ano, o conceito é simples: passar um mês sem consumir bebidas alcoólicas.
Para algumas pessoas trata-se de uma pausa temporária, para outras uma oportunidade para refletir sobre hábitos de consumo ou simplesmente testar como se sentem sem o consumo de bebidas alcoólicas durante algumas semanas.
Mais recentemente surgiram outras iniciativas semelhantes como o Sober October (Outubro Sóbrio) ou o mais moderado Damp January (Janeiro Húmido) que promove a redução do consumo em vez da abstinência total. Independentemente da abordagem escolhida, todos estes movimentos refletem uma tendência mais ampla, que os consumidores estão hoje mais atentos à sua saúde, mais conscientes das suas escolhas e mais disponíveis para questionar hábitos que durante décadas foram vistos como adquiridos.
Os números ajudam a perceber esta mudança
Segundo a Organização Internacional da Vinha e do Vinho (OIV), o consumo mundial de vinho tem vindo a diminuir de forma consistente desde 2018 e, em 2025, atingiu um dos níveis mais baixos registados nas últimas décadas. A explicação não está apenas na crescente preocupação com a saúde. A própria OIV refere fatores como a inflação, a diminuição do poder de compra, a mudança dos hábitos sociais e as diferenças de comportamento entre gerações.
Ao mesmo tempo, o valor global da categoria de bebidas sem álcool e de baixo teor alcoólico ultrapassou os 24 mil milhões de dólares em 2025 e prevê-se que continue a crescer nos próximos anos. A expectativa é que os vinhos sem álcool registem um crescimento anual próximo dos 9% até 2030. Não estamos perante uma moda passageira, estamos perante uma transformação real dos hábitos de consumo. Perante este cenário, seria fácil concluir que o vinho está a perder relevância, porém não tenho a certeza de que seja isso que está a acontecer.
Curiosamente, apesar da quebra global do consumo, Portugal foi um dos poucos mercados mundiais a registar crescimento em 2025. Segundo a OIV, o consumo nacional de vinho aumentou 5,6% face ao ano anterior, atingindo o valor mais elevado de sempre.
Quando comecei em 1997 a trabalhar no sector, o que mais me fascinou não foram os aromas nem as castas. Foi descobrir que cada garrafa continha muito mais do que vinho. Continha pessoas e uma história. Ainda hoje continuo a sentir isso quando visito produtores ou provo vinhos de regiões que conheço há muitos anos. O vinho é um produto agrícola, cultural e social e esta combinação torna-o tão difícil de substituir por outra bebida.
O vinho continua a aproximar pessoas
Ao longo de mais de duas décadas a conduzir provas de vinho, vi acontecer muitas vezes a mesma situação, pessoas que chegam sem se conhecer, sentam-se à mesma mesa, provam um vinho e trocam opiniões, fazem perguntas e ouvem histórias. E, sem darem por isso, começam a conversar. Não é o vinho que cria amizades fortes, todavia tem uma extraordinária capacidade de criar espaço para que as conversas aconteçam.
Curiosamente, um estudo* apresentado também este ano concluiu que os consumidores mais jovens entram no mundo do vinho sobretudo através dos amigos e dos seus círculos sociais, muito mais do que através da família. Achei esta conclusão particularmente interessante. Durante muitos anos assumimos que o gosto pelo vinho passava de pais para filhos. Hoje percebemos que muitas vezes nasce à volta de uma mesa, entre amigos, colegas ou pessoas que partilham interesses comuns. No fundo, o vinho continua a ser uma experiência social.
Estaremos a beber menos, mas a escolher melhor?
Nos últimos anos, organizações internacionais de saúde e autoridades públicas passaram a comunicar de forma mais assertiva os riscos associados ao consumo de bebidas alcoólicas. Paralelamente, o acesso à informação tornou os consumidores mais atentos aos temas da prevenção e do bem-estar.
No entanto, entre posições mais alarmistas e discursos defensivos, existe uma realidade simples: no final do dia, cada pessoa faz as suas escolhas de acordo com a sua situação, estilo de vida e prioridades.
Talvez por isso a discussão atual seja menos sobre beber mais ou menos e mais sobre beber de forma consciente, o que ajuda a explicar porque vemos muitos consumidores a reduzir quantidades sem necessariamente abandonar o vinho.
Sobre as novas gerações consumirem menos bebidas alcoólicas do que as anteriores, não significa necessariamente menos interesse pelo vinho.
Em várias conferências internacionais tem surgido repetidamente a ideia de "Less but Better", ou seja, menos quantidade, mais qualidade. E confesso que verifico esta tendência durante o meu trabalho em contacto com o consumidor Português.
Vejo cada vez mais pessoas interessadas em saber quem produziu o vinho, de onde vem, qual a sua história e porque é diferente. Vejo consumidores a comprar menos garrafas, mas a dar mais importância àquelas que escolhem abrir. O vinho está a perder espaço no consumo diário e a ganhar espaço nos momentos que realmente importam. E, sobretudo, em momentos que merecem ser vividos sem pressa.
Esta realidade também se reflete nas preferências dos consumidores. No Alentejo, por exemplo, a redução do consumo não é transversal a todas as categorias. Enquanto os vinhos sem indicação geográfica têm vindo a perder relevância, os vinhos certificados (D.O.C. e Regional) continuam a despertar o interesse dos consumidores. Muitos consumidores estão hoje menos focados na quantidade e mais atentos à origem, à identidade e à qualidade do vinho que escolhem beber.
Por último a inflação, o aumento dos custos de produção, da energia e dos transportes tornaram o vinho um produto mais caro do que era há alguns anos. Para muitos consumidores, abrir uma garrafa deixou de ser um gesto automático do dia a dia e passou a ser uma decisão mais ponderada. Esta realidade parece estar a reforçar uma vez mais a tendência de menos quantidade, mas maior valorização da experiência. Quando a garrafa é aberta, espera-se que o momento valha a pena.
O que procuramos afinal?
Uma das apresentações a que assisti este ano na Wine Paris e que mais me fez pensar nem sequer era sobre vinho, era sobre pessoas e abordava a solidão e a necessidade humana de pertença. Sobre como tem aumentado a procura de comunidades e encontros presenciais num mundo cada vez mais digital.
Os investigadores mostravam que as novas gerações procuram cada vez mais experiências em pequenos grupos, jantares informais, clubes temáticos e momentos de convívio sem pressão.
Enquanto ouvia a apresentação, não conseguia deixar de pensar que o vinho sempre esteve presente precisamente nesses momentos.
É um facto, ajuda a criar ambiente, a prolongar conversas e a transformar uma refeição numa ocasião. O vinho não é o motivo pelo qual as pessoas se encontram, mas muitas vezes acaba por ser o elemento que as faz ficar mais um pouco à mesa a socializar.
E os vinhos sem álcool?
Pessoalmente, tenho curiosidade sobre os vinhos sem álcool e considero que esta é uma categoria que veio para ficar.
Há quem os procure porque está a conduzir, a tomar medicação, a atravessar uma fase específica da vida ou simplesmente porque naquele momento não quer consumir álcool. E isso parece-me perfeitamente legítimo.
O que considero mais interessante é que muitas destas pessoas continuam a procurar algo que se aproxima da experiência do vinho. Querem participar num brinde, partilhar uma refeição e fazer parte do momento.
Em França tem sido observado um fenómeno particularmente curioso. Muitos consumidores alternam momentos de consumo de vinho tradicional com momentos de consumo de vinho sem álcool. O setor passou a designar este comportamento por consumo "zebra".
Talvez o futuro não passe por uma escolha entre vinho com álcool e vinho sem álcool, mas pela coexistência de ambos. Afinal, aquilo que muitas pessoas procuram não é apenas uma bebida. É a experiência, a convivência e o sentimento de pertença que a acompanha.
Talvez nunca tenha sido apenas sobre vinho
Quando penso nas garrafas de que mais me lembro, raramente me recordo apenas do que estava dentro delas, lembro-me do momento, das pessoas, das conversas.
Talvez seja por isso que continuamos a abrir garrafas, não porque precisamos de vinho, mas porque continuamos a precisar uns dos outros, afinal o ser humano sempre foi um ser social.
Precisamos de celebrar, conversar, partilhar e criar memórias. Há milhares de anos que o vinho está presente e suspeito que, enquanto continuarmos a precisar de estar juntos, haverá sempre lugar para uma garrafa sobre a mesa.
*Fontes de informações apresentadas em conferências e estudos internacionais divulgados durante a Wine Paris 2026.



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