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  • Teresa Gomes

Vamos às Vindimas - Conversas com Enólogos - Parte Dois


Vamos às Vindimas foi o nome de uma série de conversas em directo no Instagram que aconteceram entre 16 de Agosto e 28 de Setembro. Todas as Terças-feiras à noite Enólogos e Enólogas partilharam relatos fascinantes da vindima de 2021 em directo.


Ficamos a saber como é o dia-a-dia intenso da vida durante a vindima. E tomamos conhecimento das decisões inacreditáveis que têm de tomar na vinha e na adega.

Além do vinho que aspiram fazer ou qual a quinta produtora de vinhos que recomendam visitar. Este é o artigo com a segunda conversa.



Enólogos convidados - Catarina Moreira e David Picard


A segunda conversa aconteceu a 23 de Agosto com o casal de Enólogos a falarem directamente da Adega Belém, uma Urban Winery ou Adega Urbana. É isso mesmo a adega esta localizada literalmente na cidade de Lisboa. O dia foi passado a vindimar Trincadeira e as uvas tinham acabado de ser arrumadas quando a conversa começou.


A Catarina Moreira é natural de Lisboa e o David Picard de Frankfurt. Ambos académicos, enquanto a Catarina é doutorada em biologia, o David é em antropologia.


Após se conhecerem em 2010, em 2013 ingressaram no mestrado em enologia e viticultura do ISA com o segundo ano passado na Alemanha. E o projecto que é hoje Adega Belém começa a ser delineado.

A Catarina largou a investigação sobre o acasalamento de anfíbios e passa a dedicar-se a tempo inteiro ao vinho. O David dedica a sua investigação ao enoturismo e como trazê-lo para o século XXI.



Com duas filhas bebés partiram para a Suíça. O David deu aulas na Universidade de Lausanne e a Catarina como enóloga trabalhou numa adega cooperativa. Acontece que os ares das montanhas Suíças não os cativaram e algum tempo depois regressam a Portugal, com o David a manter por algum tempo o trabalho como professor, ou seja, viagens constantes entre Lisboa e Genebra.


Depois de muitas visitas a possíveis locais para a construção de uma adega nada os cativou tanto como uma antiga oficina de automóveis em Belém. A inspiração veio de uma visita, uns anos antes a uma adega em pleno parque de estacionamento numa praia em San Francisco (EUA).

Quatro anos depois da aquisição da oficina a Adega Belém abre portas e começa a vinificar em 2020.



Não têm vinha por isso compram uvas a diferentes produtores de uvas. Acompanham os controlos de maturação, escolhem as uvas e decidem quando vão vindimar manualmente conforme os vinhos que pretendem fazer.

  • Instituto Superior Agronomia - Alvarinho, Encruzado, Arinto, Moscatel Galego

  • Seminário de Caparide -Trincadeira, Castelão

  • Quinta do Carneiro - Castelão, Touriga Nacional, Touriga Franca, Alicante Bouschet

  • Quinta Piloto – Moscatel Graúdo, Castelão


Na adega as fermentações são espontâneas sem recurso a leveduras selecionadas o que pode fazer a fermentação arrancar mais lentamente. Os vinhos são vinificados em cubas de inox, dornas em substituição ao lagar, barricas de carvalho e talhas.



Relatório de vindima 2021

Inicio: 5 de Agosto (Moscatel Galego)


Casta precoce, muito aromática tem um bago muito pequeno “petit grains”. No Douro é utilizado para fazer o Moscatel de Favaios.

Segundo o David os brancos este ano estão diferentes de 2020, algumas uvas tintas com oídio. Vão ser bons vinhos.


Novidades:

» Espumante Natural e vinho Generoso de Carcavelos

» GrapeAle - Cerveja co-fermentada com vinho branco de Encruzado em parceria com a Lince.


Conversa #2 Vamos às Vindimas


Quando começam a “desenhar” os vinhos? Como se inspiram nesse processo?

CM- Visitamos as vinhas ao longo do ano. Depois da fase do pintor começamos a seguir mais de perto as uvas e vamos lá todas as semanas. Não só acompanhamos a maturação, como também o desenvolvimento aromático e sobretudo a maturação da grainha.

Desengaçamos sempre as uvas por isso temos de ir buscar os taninos às películas e grainhas.

Mesmo de aspecto verde, ao trincar as grainhas devem estar crocantes, às vezes até sabem a amêndoa. As películas não podem estar “batidas”, ou seja, com textura “flácida”, atrai podridão e pássaros. Na vinha em Caparide usamos espantalhos (falcões) porque os pássaros adoram Trincadeira.

“Fiz vindimas na Suiça, Alemanhã depois em Portugal, são 9 a 10 anos de Enologia” Catarina Moreira

Na adega como é feito o “blend”?

CM - As vinificações são em separado e por vezes também o estágio. Por exemplo, para o tinto de Castelão decidimos experimentar Carvalho Português, o que deu notas muito fortes a café, tanto na boca como no nariz. Assim acabamos por lotear com o outro Castelão que estava em carvalho Francês.

O loteamento é decidido com base na prova dos vinhos e naquilo que temos em mente fazer.

Não é predeterminado, gostamos de ir provando e ir ajustando conforme os vinhos vão desenvolvendo.


DP - Não sentimos que temos de fazer em cada ano sempre os mesmos vinhos. Temos a nossa lógica, que não é a lógica de todo o mundo.

Por exemplo, o nosso vinho de talha com Moscatel Graúdo correu muito bem, por isso este ano vamos voltar a fazer. Até compramos duas talhas novas.


“Não somos fetichistas em ter de guardar vinho. Um bom vinho é feito para beber. Os nossos tintos podem demorar dois ou três anos até irem para a garrafa mas depois estão prontos para serem bebidos.” David Picard

Qual é a característica mais importante que um vinho deve ter?

CM – Agradar a quem o bebe.


DP – Que tenham alguma personalidade. Tal como as crianças, não temos certeza como se desenvolvem. Por exemplo, temos aqui na adega um vinho branco de Viosinho de 2020 que ainda tem 10g de açúcar por litro, é um vinho caprichoso!

Quando temos visitas aqui na adega, dizem-nos que não gostam de vinhos doces, só que depois provam este Viosinho e gostam. A mim não me agrada, eu não gosto deste vinho. O aroma é interessante, mas depois na boca é como um café com muito açúcar.


“Em 1995 fiz uma vindima em França para ganhar dinheiro para viajar. Trabalhei todos os dias das três da manhã às três da tarde. Detestei!”David Picard

Se pudessem escolher fazer um vinho em qualquer região do mundo qual seria e porquê?

CM – Eu gosto muito de fazer vinho aqui mesmo com todos os desafios que uma adega urbana aporta. Sangue, suor e lágrimas aqui estou realizada.


“Temos dois Espumantes feitos de raiz foi um desafio muito grande. Estudamos, falamos com colegas que fazem espumantes. Vamos provando e estamos muito entusiasmados. Um é de Encruzado e outro de Viosinho.”Catarina Moreira

Querem fazer uma recomendação de destino para Enoturismo?

DP – Em Beiging (China) o produtor Changyu recriou uma aldeia francesa, com lojas, restaurantes e um Chateau com vinhas à volta. O vinho é muito importante para o Chinês urbano. É outra perspectiva.

A nível de arquitectura Napa Valley (California, EUA) é parecido. Em Portugal visitamos a Quinta do Freixo no Douro.


É importante além do vinho as quintas oferecerem outra atração, como a arquitectura?

DP - Sim, é importante se atrair interesse e mais visitantes.


CM – Aqui na Adega Belém temos sessões de poesia e provas de vinhos com Quizz, habitualmente às Sextas-feiras. Anunciamos no Facebook e Instagram.



Esta conversa - Vamos às Vindimas, aconteceu a 23 de Agosto de 2021. Gravação disponível aqui.

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