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  • Teresa Gomes

Porque as videiras choram e outras curiosidades da Vitis viniferea

Este é um artigo sobre o despertar das videiras em Portugal e conheceres mais de perto a Vitis viniferea.




Quantas vezes já ouviste os Enólogos dizerem que o vinho se faz na vinha?

Querem com isto dizer que sem uvas sãs não podem fazer vinho de qualidade.

Muitas, são as razões para o vinho saber ao que sabe. Costumo resumir essas razões ou factores a seis, são eles:


  1. Localização

  2. Castas

  3. Leveduras

  4. Fermentação Malolatica

  5. Estágio após fermentação

  6. Idade do vinho


As decisões e acções do Enólogo na adega podem fazer com que no final possas desfrutar de vários tipos/estilos de vinhos mesmo que todos sejam feitos a partir exactamente das mesmas uvas, provenientes da mesma vinha e vindimadas no mesmo dia, à mesma hora.


Logo a importância da qualidade da matéria-prima é crucial, o vinho é um produto agrícola, fazer vinho é agricultura pois sem boa matéria-prima não haverá um vinho digno, logo tudo começa na vinha.


Antes de contar o que se está a passar na vinha neste momento, deixa-me apresentar-te videira.


Produzimos vinhos a partir da Vitis viniferea, o nome latim para a videira europeia com origem no Irão. Existem cerca de 60 tipos da espécie Vitis, onde se incluem as uvas de mesa. A Vitis viniferea (produção de vinho) representa 90% de todas as videiras plantadas.


Das cerca de 10 mil variedades, em Portugal temos cerca de 250 castas, sendo a Fernão Pires (branca) e a Aragonez (tinta) as mais plantadas.


Cultivada em países com clima temperado, compatíveis com o crescimento e desenvolvimento harmonioso, a temperatura ambiente está na base do seu ciclo vegetativo da videira. Após a vindima, com a chegada do Outono e consequentemente dias mais frios, a videira vai deixando de ter condições que suportem a sua actividade, as folhas amarelecem e acabam por cair.

Entre fim do Outono e o princípio do Inverno a videira entra em repouso vegetativo e só dele sairá quando as temperaturas médias subirem.


O que virá a ser a produção de 2021 e os vinhos deste ano já está em marcha, neste momento o ciclo vegetativo já se iniciou um pouco por todo o Portugal.


O “acordar” começa com o choro da videira e ele acontece nos últimos dias do Inverno e representa o fim da “hibernação”, o início de um novo ciclo vegetativo. A videira começa através dos cortes da poda a perder seiva “a chorar”, sendo que esse fenómeno se verifica quando a temperatura do solo, a 25 centímetros de profundidade, chega em torno de 10°C.


Após esta fase, dependendo do tipo da uva, das condições climáticas, da natureza do solo e da quantidade de substâncias que ele retém, a videira começa a desabrochar (abrolhamento). Do Norte a Sul de Portugal já se pode ver o botão da videira inchado e em alguns casos a abrir com as primeiras folhas a surgirem.


Portugal continua a ser um país de produtores de uva (viticultores) e só alguns as transformam em vinho. Esta era uma realidade que saltava à vista até à década de 80 do seculo passado. Hoje temos a ideia que o proprietário da vinha faz o vinho (vitivinicultor) sendo em muitas vezes ele próprio o Enólogo. Quantos vinhos nós bebemos que se não fossem os viticultores, os Enólogos e casas bem conhecidas não poderiam fazer vinho em quantidade por não terem a matéria-prima suficiente?


Lembra-te que é preciso respeitar o ciclo vegetativo da videira, mesmo antes de se fazer vinho, pois entre plantar e obter uvas dignas de um primeiro vinho é necessário ter paciência e dinheiro! Idealmente 3-5 anos.

Principalmente porque durante esses primeiros anos a planta deve fortalecer a estrutura de suas raízes e desenvolver os ramos que devem ser fortes para suportar o peso dos cachos que eventualmente vão produzir. Além que nos primeiros anos podem não produzir de imediato. Arrepende-se aquele que se apressar a fazer vinho.


Como vês, é o clima “quem manda” e as latitudes que aprendi no curso de Escanção em 2001 – videiras plantadas entre os 30 e 50.º graus em ambos os hemisférios, também estão a sofrer alterações.No hemisfério norte a abrangência está a alargar-se, sobretudo em direcção ao equador e até aos 13º.


Além das alterações climáticas, a melhoria da reprodução de videiras pelos viveiristas permite que hoje se junte à lista dos países produtores de vinho a Inglaterra, Russia, Zimbabue, Tailandia, Kasaquistão, Coreia do Sul, China ou Japão.


De volta a Portugal, depois de um Inverno rigoroso com muitos dias de frio e chuva, as videiras aí estam para nos darem o seu melhor fruto daqui a alguns meses. Aguardemos…


Que outras curiosidades sabes sobre as videiras? Partilha comigo em baixo.



Fotografia: IVDP




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